Quando a 28 de Fevereiro, os EUA e Israel iniciaram uma guerra imperialista contra o Irão e este respondeu com o bloqueio do estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20%  do abastecimento mundial de combustível, não demorou muito até que quase todos nós pudéssemos sentir ou prever o aumento dos custos dos combustíveis, alimentos e outros bens essenciais. 

Enquanto o gasóleo leva um aumento acumulado de 35 cêntimos e a gasolina quase 20, os lucros da Galp dispararam 41% para uns 272 milhões de euros no primeiro trimestre. O cabaz alimentar atingiu valores recorde de 257,95€ que leva também a um crescimento de pedidos de ajuda no Banco Alimentar. Estes aumentos deram muitas alegrias aos acionistas da Galp, da Jerónimo Martins e tantos outros capitalistas, mas asfixiam-nos, trabalhadores, já esmagados pelo preço das casas, que em 2025 aumentou perto de 25%, o maior aumento em 40 anos.

Monopólios das energias e alimentação praticam inflação especulativa muito acima dos efeitos da guerra

Os aumentos em Portugal são os mais altos da Zona euro e destacam-se em particular em relação ao vizinho Estado Espanhol onde a gasolina está meio euro mais barata, o gasóleo 43 cêntimos e a botija de gás fica por metade do preço, num país onde o salário mínimo mensal é 300€ brutos mais elevado que por cá.

Na verdade a esmagadora maioria do petróleo e gás importados para Portugal não vêm sequer do Médio Oriente, mas antes do Brasil, EUA, Rússia e Norte de África. O que será que explica então estes aumentos? Apenas a ganância especulativa das grandes empresas de energias que querem encher os bolsos com a desculpa da guerra imperialista.

Galp, BP, Repsol e Cepsa detinham em 2020 mais de 60% dos postos de combustível do país. A proeminência deste cartel facilita a especulação que utiliza este tipo de conflitos como mais um motivo aparentemente válido para subir preços durante crises que “nos impactam a todos”. Ao contrário de qualquer família trabalhadora que vê as suas finanças reduzidas após as compras do mês, estas multinacionais vêem lucros crescer mês após mês, ano após ano.

É certo que a energia é a base da produção industrial e transporte e que quando é impactada desta forma, os custos todos os sectores aumentam, levando assim aos aumentos daquilo que acabamos por ter que comprar e trazer para nossas casas. Mas os aumentos da alimentação são exagerados pela mesma razão.

Também na alimentação o mercado é monopolista, controlado em mais de 80% por apenas 6 grupos: Continente, (Sonae), Pingo Doce (Jerónimo Martins), Lidl (Schwarz), Mercadona, Intermarché (Os Mosqueteiros) e Auchan (a que agora pertence também o Minipreço). Enquanto as centenas de produtores continuam a vender relativamente barato, muito graças a subsídios do Estado e à sobreexploração de mão-de-obra muitas vezes imigrante e em regime de escravidão, as grandes empresas de distribuição atuam como cartel para aumentar os preços e ficam com a fatia de leão dos lucros, condenam-nos à miséria.

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Os aumentos em Portugal são os mais altos da Zona euro e destacam-se em particular em relação ao vizinho Estado Espanhol onde a gasolina está meio euro mais barata.

O governo intervém para salvar os capitalistas enquanto abandona a classe trabalhadora. Para controlar os preços é preciso derrubá-lo e nacionalizar estes sectores

A resposta do governo, perante uma classe trabalhadora esmagada pelos aumentos especulativos dos capitalistas, foi apenas diminuir o Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos (ISP), devolvendo aos consumidores o que arrecadaria com o IVA.

Mas o que sempre acontece com medidas de alívio puramente fiscais é as empresas aumentarem os preços para o mesmo valor e porem ao bolso a diferença que iria para os cofres do Estado. 

Vi-mo-lo na aplicação do IVA 0 da alimentação durante a guerra da Ucrânia - em pouco tempo o preço dos alimentos já estava no mesmo valor - e estamos a voltar a vê-lo agora: o “preço eficiente” dos combustíveis continua acima dos 2 euros. São as grandes empresas quem ganham com estas políticas, não a população.

Para além disto, reduzir o imposto é perder o dinheiro que entraria nos cofres públicos e seria investido no país, e em vez disso ter esse dinheiro a aumentar os lucros das grandes empresas. 

Mas se com a classe trabalhadora o governo não concebe gastar um único cêntimo - aplicando uma medida de “neutralidade fiscal” - já para a burguesia há uma transferência de 600 milhões de euros. O nosso Luís dos Bosques ao contrário mostra-nos o famoso truque de magia da transferência de dinheiro que deveria ser investido na nossa infraestrutura, nas nossas reformas, na nossa saúde e educação, para as contas das grandes empresas.

Já temos exemplos que cheguem de uma burguesia que lucra milhões às custas dos sacrifícios da classe trabalhadora. Se não queremos pagar a nova crise capitalista que se está a desenvolver temos que fazer com que o Luís deixe de trabalhar para o capital e passarmos a ser nós trabalhadores a controlar a produção. Nacionalizemos estes setores, as empresas de transporte, as terras dos grandes terratenentes.

Nacionalizemos a banca pois é onde está a maior parte da riqueza e onde a burguesia financeira faz milhões de lucros diariamente há já vários anos. Com isso, aumentemos os salários para sairmos da miséria! Se uma vida digna se paga com 1600€ líquidos, é esse o salário minimo que precisamos. Um país tornado resort em que os detentores de capital e seus herdeiros é que podem usufruir enquanto quem colocou os tijolos, quem alcatroou as estradas, quem formou os engenheiros e os enfermeiros expulsos para lá das fronteiras, não consegue pagar um quarto com mais que meia-dúzia de metros quadrados ou as contas ao fim do mês.

Os trabalhadores sofrem as escolhas pró-capitalistas de investimentos feitos no passado. Para que os dirigentes da Brisa e de outras empresas que fazem manutenção de autoestradas pudessem encher os bolsos, Portugal foi criando e investindo cada vez mais na rodovia em oposição aos caminhos de ferro. O transporte rodoviário consome muito mais energia e mão-de-obra do que o ferroviário, para além de ser muito mais poluente, um problema que se revela com particular agudez nas crises energéticas. É necessário fazermos a transição energética para energias limpas, através também do investimento massivo na ferrovia.

Um governo que deixa a população à mercê dos céus durante tempestades de proporções catastróficas, que deixa bebés nascerem sistematicamente em ambulâncias, que esconde de onde vem o dinheiro dos seus partidos e os trabalhos das suas empresas, deverá ser despedido por justa causa. Um pacote laboral que faz os patrões salivar com a ideia de mandar os seus funcionários para a rua para poder recontratar a preços de saldo, deveria ser a gota d’água de um governo que só chove no molhado. 

Ao governo do capital que nos ataca todos os dias seja com a retirada de direitos ou com roubos descarados temos de responder com a greve geral para o derrubar.

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