A figura de Rosa Luxemburgo eleva-se acima do tempo e transmite-nos uma mensagem vibrante e imperecível. A marxista intransigente que desafiou a social-democracia alemã no seu desvio para o oportunismo e o patriotismo chauvinista, que ergueu a bandeira do internacionalismo proletário e foi encarcerada por se opor tenazmente à carnificina imperialista, jamais cedeu às pressões dos seus adversários.

O seu vil assassinato e o do seu camarada Karl Liebknecht, ordenados pelo ministro social-democrata Gustav Noske e executados por militares de extrema-direita e monárquicos num momento decisivo do processo revolucionário na Alemanha, não foram uma improvisação. A burguesia e os seus lacaios sabiam muito bem o que pretendiam com este crime: privar o movimento comunista alemão e mundial de duas das suas cabeças mais sólidas, competentes e audazes.

Apesar do tempo decorrido desde então e tendo em conta as enormes transformações que o mundo experimentou, as ideias de Rosa Luxemburgo continuam a iluminar o caminho da libertação socialista e a fornecer respostas rigorosas e científicas aos problemas com que hoje se confrontam a táctica e a estratégia revolucionárias[1]

Sob a bandeira da rebelião

Rosa Luxemburgo, fundadora da social-democracia revolucionária polaca, da ala esquerda do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), da Liga Espartaquista e do Partido Comunista da Alemanha (KPD), é uma referência essencial do marxismo não deturpado, não envilecido. A sua militância incansável e a sua perseverança no estudo do socialismo científico transformaram-na numa oradora brilhante e numa teórica de grande envergadura. A sua produção abrangeu múltiplos campos: táctica política, propaganda revolucionária, questão nacional, economia política, reformismo e guerra imperialista… Basta assinalar a importância que, para a formação de gerações de combatentes, tiveram Reforma ou revolução e Greve de massas, partido e sindicatos[2].

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Rosa Luxemburgo é uma referência essencial do marxismo não deturpado, não envilecido.

O carácter de Rosa forjou-se em circunstâncias difíceis, contra a corrente. Na sua juventude, enfrentou os polícias russos quando se iniciava na luta clandestina. Já como marxista militante, enfrentou os dirigentes chauvinistas da social-democracia polaca oficial e não hesitou em desmascarar o oportunismo dos figurões do SPD e da Segunda Internacional. Colocou-se na primeira linha contra o social-patriotismo e a guerra imperialista, pagando com um longo encarceramento. Nunca faltou aos seus princípios internacionalistas, proclamando, juntamente com o seu camarada Liebknecht, que o inimigo principal não eram os trabalhadores russos ou franceses que morriam nas trincheiras como os seus irmãos alemães, mas que o inimigo principal «estava em casa», nos estados-maiores, no Governo, na Coroa, nos conselhos dos grandes bancos e nos monopólios armamentistas que enriqueciam à custa do sangue operário.

Rosa encontrava sempre a forma mais eficaz de enfurecer os lacaios do capitalismo e todos aqueles que ostentavam uma moral apodrecida para encobrir ou justificar a opressão. Foi também vítima do machismo oitocentista que imperava nas altas esferas do movimento socialista alemão e internacional. Tal como outras mulheres da estatura de Clara Zetkin, Nadezhda Krupskaia ou Alexandra Kollontai, o seu ardente compromisso com a emancipação da mulher trabalhadora colocou-a como uma pioneira do feminismo de classe, socialista e revolucionário[3].

Rosa Luxemburgo demonstrou que, na sua actividade, não existia qualquer dissociação entre teoria e prática: a sua participação directa na revolução russa de 1905, na alemã de 1918 e na insurreição operária berlinense de Janeiro de 1919 permitiu-lhe extrair conclusões valiosas sobre a táctica e as tarefas do partido revolucionário.

Aprendia com o movimento vivo da luta de classes e imprimia o seu selo vital e original em tudo o que fazia e escrevia, demonstrando o seu desprezo pelo conforto da vida burguesa e pequeno-burguesa. Quer com a pena, quer da tribuna, na clandestinidade ou na prisão, tornou-se, por mérito próprio, uma das grandes guias do socialismo revolucionário, a par de Marx, Engels, Lenine e Trotsky.

Reforma ou revolução

Rosa Luxemburgo desenvolveu a maior parte da sua acção num enquadramento histórico desfavorável às ideias do marxismo: o do crescimento do imperialismo mundial e do avanço do oportunismo nas fileiras do movimento social-democrata europeu.

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Rosa Luxemburgo demonstrou que, na sua actividade, não existia qualquer dissociação entre teoria e prática: a sua participação directa em várias revoluções permitiu-lhe extrair conclusões valiosas sobre a táctica e as tarefas do partido revolucionário.

As décadas de 1870 e 1880 caracterizaram-se por uma forte reacção política na Europa. A derrota da Comuna de Paris[4] e a dissolução da Primeira Internacional quebraram a capacidade de resistência operária, prepararam um período de crescimento económico sem precedentes e inspiraram enorme confiança à classe dominante. Foram necessários anos para que as feridas das derrotas cicatrizassem e para que a expansão do capitalismo ampliasse a força dos trabalhadores e as possibilidades de coesão e organização.

A fundação oficial da Segunda Internacional, em 1889, marcou uma mudança fundamental nesse processo de recomposição que, nas duas décadas seguintes, se consolidou com a criação de poderosos partidos operários e sindicatos de massas na maioria dos países do velho continente. Pelo menos em palavras, a Internacional continuou a defender os princípios do marxismo.

De todas as organizações socialistas da época, a social-democracia alemã era a que dispunha de maior influência social e política, graças ao desenvolvimento industrial do país, mas sobretudo à sua oposição à legislação repressiva do Estado bismarckiano e à defesa dos direitos da classe operária.

Contudo, o período em que a Segunda Internacional e o SPD adquiriram a sua fisionomia de organizações de massas coincidiu com um longo ciclo de prosperidade capitalista. Graças à exploração das colónias e à enorme mais-valia obtida no mercado mundial, as burguesias das grandes potências puderam realizar certas «reformas» políticas (parlamentarismo, sufrágio universal…) e conceder benefícios materiais ao sector mais qualificado dos trabalhadores, a chamada aristocracia operária.

Os sucessos eleitorais e a crescente actividade institucional inspiraram ao SPD uma orientação mais moderada e conciliadora. Através de milhares de cargos em câmaras municipais, parlamentos e sindicatos[5], muitos deles usufruindo de condições privilegiadas muito distantes da realidade do resto da classe operária, infiltrou-se o espírito pequeno-burguês e conformista. Beneficiando materialmente de um sistema em ascensão e aparentemente indestrutível, uma burocracia de carreiristas foi ocupando o aparelho sindical, político e parlamentar do SPD, até se transformar num bastião da ordem estabelecida.

A tendência oportunista não tardou a questionar «teoricamente» os fundamentos marxistas e adquiriu a sua forma mais acabada a partir de 1898. Nesse ano, Eduard Bernstein, figura destacada do socialismo alemão e durante algum tempo secretário de Engels, publicou na Die Neue Zeit[6] uma série de artigos[7] nos quais defendia o abandono da concepção marxista da revolução e a sua substituição pela colaboração pacífica com as instituições capitalistas. As reformas sociais através do parlamentarismo e da cogestão económica eram, segundo Bernstein, o caminho mais realista e eficaz para a emancipação dos trabalhadores.

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Em 1898 Eduard Bernstein, dirigente do PSD alemão, publicou uma série de artigos nos quais defendia o abandono da concepção marxista da revolução e a sua substituição pela colaboração pacífica com as instituições capitalistas.

As teses de Bernstein, que Karl Kautsky considerou «sumamente atractivas», encontraram amplo eco nas cúpulas do partido, dos sindicatos e da Internacional, mas também a rejeição de dirigentes destacados como Plekhanov e Lenine. No seio do partido alemão, a batalha teórica contra o revisionismo ganhou a maior notoriedade graças ao esforço de Rosa Luxemburgo, que o refutou numa série de artigos posteriormente publicados num livro com o título Reforma ou revolução.

A resposta de Rosa perdura como uma das exposições mais rigorosas da teoria marxista sobre o Estado, a economia política, a revolução e o socialismo. A actualidade e a profundidade da sua proposta são inegáveis:

À primeira vista, o título desta obra — escreve no seu prefácio — pode parecer surpreendente: Reforma ou revolução. Pode a social-democracia ser contra as reformas? Pode considerar como opostos a revolução social, a transformação da ordem estabelecida, o seu fim último, e as reformas sociais? Evidentemente que não. Para a social-democracia, a luta quotidiana pela conquista de instituições democráticas e de reformas sociais que melhorem, ainda dentro da ordem existente, a situação dos trabalhadores, constitui o único caminho para orientar a luta de classes proletária e trabalhar pelo fim último: a conquista do poder político e a abolição do sistema de trabalho assalariado. Para a social-democracia, existe um vínculo indissolúvel entre reforma e revolução: a luta pelas reformas sociais é o meio, enquanto a luta pela revolução social é o fim[8].

O marxismo sempre defendeu que as reformas que representam avanços reais nos direitos sociais, políticos e económicos dos trabalhadores são produto da luta de classes — frequentemente de carácter revolucionário — e não consequência da habilidade negocial dos dirigentes sindicais ou dos senhores parlamentares.

Na luta por essas reformas, os trabalhadores desenvolvem a sua consciência de classe e podem avançar politicamente para conclusões mais completas. Os factos demonstram que qualquer conquista, por mais sólida que pareça, pode ser retirada pela burguesia quando a correlação de forças se altera. No quadro das relações sociais de produção capitalistas, as reformas têm um carácter temporário: são constantemente revogadas, anuladas e feitas em pedaços.

A razão derradeira da luta pelas reformas é educar a classe operária e os oprimidos numa ideia-chave: só tomando posse do poder político e das alavancas fundamentais da economia — isto é, nacionalizando sob controlo democrático da classe operária a banca, os monopólios e a terra, e estabelecendo uma democracia operária — será possível construir uma sociedade igualitária, baseada na justiça social, livre da exploração e de qualquer forma de opressão de classe, nacional, racial ou de género.

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No seio do partido alemão, a batalha teórica contra o revisionismo ganhou a maior notoriedade graças ao esforço de Rosa Luxemburgo, que o refutou com Reforma ou Rrevolução.

O marxismo apoia-se nas lutas quotidianas para elevar a confiança dos trabalhadores nas suas próprias forças e reforçar a sua consciência socialista, não para a rebaixar alimentando ilusões de que, sob o capitalismo, é possível encontrar uma saída progressista para os problemas dos oprimidos.

Com Reforma ou Revolução, Rosa Luxemburgo refutou, uma a uma, todas as teses do «socialismo gradualista» de Bernstein e, simultaneamente, respondeu aos reformistas de hoje que alegam a possibilidade de um «capitalismo de rosto humano» precisamente num momento em que a desigualdade social, o avanço do autoritarismo e da extrema-direita, as guerras imperialistas e a ditadura do capital financeiro colocaram em crise as bases da democracia parlamentar burguesa.

Os parágrafos seguintes, escritos por Rosa Luxemburgo dezassete anos antes da publicação de O Estado e a Revolução[9] de Lenine, demonstram a vitalidade do seu pensamento:

O Estado actual é, antes de mais, uma organização da classe capitalista dominante, e se exerce diversas funções de interesse geral em benefício do desenvolvimento social fá-lo apenas na medida em que esse desenvolvimento coincide, em geral, com os interesses da classe dominante. (…)

As instituições, ainda que democráticas na sua forma, são no seu conteúdo instrumentos dos interesses da classe dominante. (…)

Seguindo as concepções políticas do revisionismo chega-se à mesma conclusão que estudando as suas teorias económicas: não procura a realização do socialismo, mas a reforma do capitalismo; não procura a supressão do sistema de trabalho assalariado, mas a diminuição da exploração. Em suma, não procura a supressão do capitalismo, mas a atenuação dos seus abusos. (…)

A necessidade da conquista do poder político por parte do proletariado esteve sempre fora de qualquer dúvida para Marx e Engels. Coube a Bernstein a honra de considerar o galinheiro do parlamentarismo burguês como o órgão destinado a realizar a mais imponente transformação social da história: a transformação da sociedade capitalista em sociedade socialista[10].

Na parte final da obra, Rosa Luxemburgo reafirma o papel da dialéctica materialista como espinha dorsal da acção revolucionária, que Bernstein despreza e substitui por uma mistura de idealismo e eclectismo:

À primeira vista, a sua doutrina, composta com as migalhas de todos os sistemas possíveis, parece carecer completamente de preconceitos. Bernstein (…) acredita defender uma ciência humana geral, abstracta, um liberalismo abstracto, uma moral abstracta. Mas como a sociedade real se compõe de classes que têm interesses, objectivos e concepções diametralmente opostos, por agora é pura fantasia, um auto-engano, falar de uma ciência humana geral das questões sociais, de um liberalismo abstracto, de uma moral abstracta. A ciência, a democracia e a moral que Bernstein julga humanas e universais não são senão a ciência, a democracia e a moral dominantes, isto é, a ciência, a democracia e a moral burguesas. (…)

O livro de Bernstein tem grande importância histórica para o movimento operário alemão e internacional porque é a primeira tentativa de dotar as correntes oportunistas da social-democracia de uma base teórica. (…)

O que é, à primeira vista, o traço mais característico de todas essas correntes? A hostilidade à teoria. Isso é perfeitamente natural, pois a nossa teoria, isto é, os fundamentos do socialismo científico, estabelece limites muito definidos à actividade prática, tanto no que respeita aos fins como aos meios de luta a empregar, e também quanto à forma de lutar. Por isso é natural que todos aqueles que procuram apenas êxitos pragmáticos manifestem uma aspiração igualmente natural a ter as mãos livres, isto é, a tornar a prática independente da teoria[11].

Estamos perante um dos tesouros da literatura marxista que conserva ainda uma capacidade argumentativa surpreendente. Para muitos activistas de esquerda e jovens que se iniciam nas ideias do socialismo, será uma descoberta extraordinária que os estimulará a estudar a obra desta grande revolucionária. Para os mais experientes, é um lembrete de que a teoria é um guia indispensável para a acção, e de que afastar-se dela em nome do «pragmatismo» significa enveredar por um caminho que acaba sempre por virar costas à classe operária.

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Reforma ou Revolução é um dos tesouros da literatura marxista que conserva ainda uma capacidade argumentativa surpreendente.

Reforma ou Revolução dá pleno sentido à afirmação de Marx: A arma da crítica não pode evidentemente substituir a crítica das armas; a força material deve ser vencida pela força material; mas também a teoria se torna força material logo que se apodera das massas[12].

A espada e a chama da revolução

A figura de Rosa Luxemburgo está intimamente ligada aos acontecimentos turbulentos da revolução alemã de 1918-1919. Fruto da guerra imperialista, as suas forças motrizes partilham um padrão comum com a revolução russa: os milhões de mortos e mutilados em batalhas organizadas para conquistar anexações territoriais, controlar matérias-primas, rotas comerciais e mercados; as privações na retaguarda, com o seu rasto de escassez e miséria; e, em contraste, a abundância e os enormes lucros que a burguesia acumulou nesses anos terríveis…

No caso da Alemanha, como no da maioria das nações europeias, a traição da social-democracia, passada abertamente para o campo do «social-patriotismo», representou um golpe devastador para a classe operária. Temporariamente paralisados pela propaganda chauvinista, os trabalhadores europeus aprenderam muito na escola da guerra imperialista — uma escola que esmagou milhões de vidas inocentes e pintou o quadro dos horrores mais terríveis.

A guerra é, na maioria das vezes, a parteira da revolução. E a revolução socialista irrompeu no elo mais fraco: a Rússia czarista. A vitória da classe operária em Fevereiro de 1917, a proclamação da república e o derrube do czar não impediram a burguesia e os grandes proprietários de continuarem a manobrar para preservar o seu poder sob novas formas «democráticas». Mas o prolongamento da guerra, o descontentamento nas trincheiras, a fome na retaguarda e a sede de terra dos camponeses chocavam com a audácia desencadeada das massas em busca de uma mudança radical. Essa consciência socialista, ampliada pelos acontecimentos e pela intervenção do Partido Bolchevique de Lenine e Trotsky, transformou-se na força material que permitiu o triunfo revolucionário de Outubro, abrindo o caminho ao socialismo internacional.

Um ano depois, as derrotas dos exércitos imperiais do Kaiser provocaram uma convulsão semelhante. O levantamento dos marinheiros de Kiel, no início de Novembro de 1918, foi o sinal de um movimento incendiário. Operários e soldados alemães insurrectos conquistaram cidade após cidade, abriram prisões, libertaram presos políticos, içaram a bandeira vermelha em ruas, fábricas e quartéis e formaram conselhos de operários e soldados. Em apenas alguns dias, a força da classe trabalhadora demonstrou ser muito mais eficaz para derrubar o Império alemão do que os obuses inimigos.

Nesse mês de Novembro de 1918, a classe operária alemã tornou realidade a república dos conselhos e começou a disputar à burguesia o direito de dirigir a sociedade. Os operários alemães fizeram tudo o que estava ao seu alcance — e mais ainda — para mudar o curso da história.

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Em novembro de 1918, a classe operária alemã tornou realidade a república dos conselhos e começou a disputar à burguesia o direito de dirigir a sociedade.

Em dois meses agónicos, o poder encarnado pelos conselhos alemães não conseguiu impor-se, ao contrário do que sucedera na Rússia revolucionária. Os factores que determinaram esse desfecho são diversos, mas um sobressai acima de todos: a revolução foi traída e assassinada pelos dirigentes do SPD.

Ebert, Scheidemann, Noske… os chefes da social-democracia que tinham apoiado os créditos de guerra e a política do imperialismo alemão desde 4 de Agosto de 1914 selaram uma coligação com o Alto Comando do Exército — os mesmos que tinham enviado milhões de soldados para o massacre. Os social-patriotas detestavam a revolução como um pecado mortal e não hesitaram em aliar-se a criminosos que, anos mais tarde, se tornariam a espinha dorsal das SA e das SS; afinal, movia-os o objectivo comum de preservar a ordem capitalista.

A burguesia alemã assimilou profundamente as lições da revolução russa e os êxitos dos bolcheviques. Não se deixou intimidar pelos acontecimentos e concentrou-se em garantir a derrota revolucionária. Para tal, recorreu a dois caminhos complementares. Por um lado, sabotou a revolução a partir de dentro, utilizando o SPD e a autoridade que este ainda conservava entre amplos sectores das massas. O objectivo era claro: controlar os conselhos de operários e soldados e submetê-los, o mais rapidamente possível, à legalidade burguesa. Por outro, lançou-se à criação de uma força armada de confiança que pudesse ser utilizada contra os operários revolucionários, as suas organizações e os seus dirigentes. A contra-revolução começou a preparar os seus grupos de choque desde o próprio dia em que a República foi proclamada, a 9 de Novembro de 1918.

A contra-revolução — a direcção do SPD e os militares reaccionários e monárquicos —, apoiada e financiada pelos grandes capitalistas, enfrentou a resistência feroz dos operários e das suas organizações combativas. Entre estas destacava-se a Liga Espartaquista (a corrente marxista revolucionária), dirigida por Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht e Leo Jogiches, que no final de Dezembro de 1918 se transformaria no Partido Comunista da Alemanha (KPD).

Confrontada com um inimigo dotado de meios muito superiores, a Liga Espartaquista tentou seguir o exemplo dos bolcheviques. Mas a heroicidade e o sacrifício dos operários berlinenses não foram suficientes. No decurso daqueles dias vertiginosos, não foi possível improvisar os quadros e o partido, que exigiam uma forja de anos. Finalmente, a contra-revolução conseguiu esmagar a insurreição de Janeiro de 1919.

Rosa Luxemburgo foi detida juntamente com Karl Liebknecht a 15 de Janeiro de 1919 por comandos dos Freikorps, sob as ordens do ministro do Interior social-democrata Gustav Noske, e assassinada imediatamente após ter sido brutalmente espancada. Algumas semanas depois, a polícia prendeu, torturou e executou Leo Jogiches, o indomável revolucionário e companheiro de Rosa durante muitos anos.

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Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht foram detidos a 15 de janeiro de 1919 por comandos dos Freikorps, sob as ordens do ministro do Interior social-democrata Gustav Noske, e brutalmente assassinados imediatamente.

Foi o prelúdio de uma repressão sangrenta destinada a liquidar o poder dos conselhos em todo o território alemão, fuzilando e encarcerando milhares de operários comunistas. Sobre estas bases ergueu-se a República de Weimar, que catorze anos depois entregaria o poder a Hitler.

* * *

O martírio de Rosa Luxemburgo e dos seus camaradas não impediu que a sua figura fosse objecto de numerosas manipulações e ataques. E não falamos da opinião pública burguesa, que sempre a condenou como uma revolucionária perigosa. A sua independência de critério, a sua obstinada honestidade intelectual e a sua fidelidade aos princípios do marxismo revolucionário e do internacionalismo tornaram-na igualmente uma proscrita para o estalinismo.

Quando o regime burocrático se apoderou do controlo do Estado soviético, e a perseguição à velha guarda leninista se tornou a marca distintiva da nova doutrina oficial, a obra e a figura de Rosa Luxemburgo passaram a ser um alvo de Estaline. Os seus escritos foram incluídos no índice de livros proibidos e as acusações sistemáticas de «desviacionismo trotskista» contra ela estenderam-se a todos os cantos da Internacional Comunista.

Noutros meios — desde sectores social-democratas de «esquerda» até círculos libertários — construiu-se a imagem de uma Rosa Luxemburgo defensora de uma visão «democrática» do socialismo em oposição ao suposto autoritarismo leninista. Uma falsificação que não resiste a qualquer análise séria e que utiliza de forma tortuosa as divergências políticas entre Rosa Luxemburgo e Lenine, elevando-as à categoria de diferenças de princípio[13].

Apesar das controvérsias que mantiveram, existe uma unidade evidente entre o pensamento de Lenine e o de Rosa Luxemburgo[14]. Ambos coincidiram sempre nos aspectos fundamentais do programa e da estratégia revolucionária, e Rosa não ocultou a sua plena solidariedade política com o bolchevismo nos últimos escritos da sua vida, à luz da sua própria experiência na revolução alemã[15].

Concluímos esta apresentação citando um excerto da sentida homenagem que a sua amiga e camarada Clara Zetkin escreveu poucos dias após a morte de Rosa, e que nos parece particularmente representativo:

Tão claro quanto profundo, o seu pensamento distinguia-se sempre pela independência; não necessitava de se submeter a fórmulas rotineiras, pois sabia julgar por si própria o verdadeiro valor das coisas e dos fenómenos (…) Luxemburgo, grande teórica do socialismo científico, nunca caiu nessa pedantaria livresca que tudo aprende na letra impressa e não conhece outro alimento espiritual senão os conhecimentos indispensáveis e circunscritos à sua especialidade; a sua grande sede de saber não conhecia limites, e o seu espírito amplo, a sua sensibilidade aguda, levavam-na a descobrir na natureza e na arte fontes constantemente renovadas de prazer e de riqueza interior.

No espírito de Rosa Luxemburgo, o ideal socialista era uma paixão avassaladora que tudo arrastava; uma paixão, ao mesmo tempo, do cérebro e do coração, que a consumia e a impelia a criar. A única grande e pura ambição desta mulher sem par, a obra de toda a sua vida, foi preparar a revolução que abriria caminho ao socialismo. Poder viver a revolução e tomar parte nas suas batalhas era para ela a suprema felicidade. Com uma vontade férrea, com um total desprezo por si própria, com uma abnegação impossível de exprimir por palavras, Rosa colocou ao serviço do socialismo tudo o que era, tudo o que valia, a sua pessoa e a sua vida. A oferta da sua vida à ideia não foi feita apenas no dia da sua morte; já a havia entregue, fragmento a fragmento, em cada minuto da sua existência de luta e de trabalho. Por isso podia legitimamente exigir também dos outros que entregassem tudo — até a própria vida — em nome do socialismo. Rosa Luxemburgo simboliza a espada e a chama da revolução, e o seu nome ficará gravado nos séculos como o de uma das mais grandiosas e insignes figuras do socialismo internacional[16].

Notas:

  • [1] Para um conhecimento mais aprofundado da vida e do pensamento da revolucionária polaca, ver: Juan Ignacio Ramos, Bajo la bandera de la rebelión. Rosa Luxemburgo y la revolución alemana. Fundación Federico Engels, Madrid 2017
  • [2] Ambas as obras editadas pela Fundação Federico Engels.
  • [3] Ver Mujeres en revolución. Fundação Federico Engels, Madrid, 2022.
  • [4] Como consequência da guerra franco-prussiana, em Março de 1871 os operários de Paris tomaram o poder na cidade e estabeleceram a Comuna. Foi a primeira revolução operária e socialista da história. A Fundação Federico Engels publicou os textos mais importantes de Marx, Engels, Lenine e Trotsky sobre a Comuna no livro El cielo por asalto.
  • [5] Nas eleições gerais de 1912, o SPD obteve 4.250.000 votos, que se traduziram em 110 deputados no Reichstag, contando ainda com 2.886 vereadores. Em 1914, antes do início da Primeira Guerra Mundial, o SPD tinha 1.085.905 membros, e os sindicatos que dominava integravam mais de dois milhões de filiados.
  • [6] Revista teórica do SPD.
  • [7] Estes textos foram reunidos em livro: Eduard Bernstein, As premissas do socialismo e as tarefas da social-democracia.
  • [8]Rosa Luxemburgo, Reforma ou Revolução. Fundação Federico Engels, Madrid, 2022, p. 27.
  • [9] Existe edição da Fundação Federico Engels.
  • [10]Reforma ou Revolução, pp. 57, 61, 98 e 103.
  • [11]Ibidem, pp. 109, 112 e 113.
  • [12]Karl Marx, Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel.
  • [13]Um dos seus principais biógrafos desmonta de forma contundente este conjunto de falsificações: Peter Nettl, Rosa Luxemburgo. Editorial ERA, México, 1974.
  • [14]Juan Ignacio Ramos, Controvérsias marxistas. Lenine e Rosa Luxemburgo, em izquierdarevolucionaria.net.
  • [15]Basta citar o célebre texto de Lenine sobre Rosa Luxemburgo — escrito depois de um antigo dirigente do KPD, Paul Levi, ter tornado público o trabalho que Rosa elaborou na prisão sobre a Revolução de Outubro, mas que nunca quis publicar em vida — para esclarecer definitivamente a questão: «Paul Levi quer fazer boas graças à burguesia — e, consequentemente, aos seus agentes, a Segunda e a Segunda e Meia Internacionais — publicando os escritos de Rosa Luxemburgo em que ela se enganou. A isto responderemos com uma frase de uma velha fábula russa: “Por vezes as águias voam mais baixo do que as galinhas, mas uma galinha jamais poderá elevar-se tão alto como uma águia”. Rosa Luxemburgo enganou-se quanto à independência da Polónia; enganou-se em 1903 na sua análise do menchevismo; enganou-se na teoria da acumulação do capital; enganou-se em Junho de 1914 quando, juntamente com Plekhánov, Vandervelde, Kautsky e outros, defendeu a unidade entre bolcheviques e mencheviques; enganou-se no que escreveu na prisão em 1918 (corrigiu a maioria desses erros após sair em liberdade). Mas, apesar dos seus erros, foi — e continua a ser para nós — uma águia. E não só a sua memória será sempre honrada pelos comunistas de todo o mundo, como a sua biografia e a edição das suas obras completas (na qual os comunistas alemães inexplicavelmente se atrasaram, o que em parte pode ser desculpado pela quantidade insólita de vítimas registadas na sua luta) representarão uma valiosa lição para a educação de muitas gerações de comunistas em todo o mundo. “Desde 4 de Agosto de 1914, a social-democracia alemã é um cadáver putrefacto.” Esta frase tornará o nome de Rosa Luxemburgo famoso na história do movimento operário.»
  • [16]Clara Zetkin, Rosa Luxemburgo, em Marxist Internet Archive.
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