O presidente da Ucrânia falou ao parlamento português por teleconferência na quinta-feira, 21 de abril. Tal como noutros parlamentos europeus, o discurso foi propaganda de guerra, pedindo armas e dinheiro, além de mais sanções contra a Rússia.

Propaganda de guerra e um insulto à memória histórica da Revolução

Como marxistas, declaramos sem rodeios que a guerra é reacionária dos dois lados e que será a classe trabalhadora na Ucrânia, na Rússia e em todo o mundo a sofrer as consequências. Precisamente por isto, é fundamental que não nos deixemos enganar pelas mentiras e propaganda de guerra.

O convite do parlamento português a Zelensky não é o apoio ao povo ucraniano ou a um país “agredido”, é uma tomada de posição do governo e dos partidos presentes em apoio ao bloco imperialista da NATO e dos EUA na sua disputa com o bloco imperialista da Rússia e da China pela hegemonia mundial.

Desde o início da invasão russa, Zelensky é apresentado na comunicação social ocidental como um defensor da liberdade e dos direitos humanos. A sua política ultranacionalista e reacionária, tal como a influência de organizações fascistas no aparelho de Estado ucraniano, são cuidadosamente ocultadas. O convite para discursar no parlamento português é mais uma contribuição do PS e de todos os partidos parlamentares — à exceção do PCP — para essa limpeza da imagem do governo ucraniano.

O mesmo foi feito por muitos outros parlamentos da Europa. No parlamento grego, por exemplo, Zelensky teve a ousadia de se fazer acompanhar por um militar do batalhão Azov, organização paramilitar fascista que integrou o exército ucraniano em 2014 e é conhecida por agressões e assassinatos de comunistas, militantes de esquerda, sindicalistas, feministas, ciganos, imigrantes, pessoas LGBT, falantes de russo ou quaisquer opositores políticos do regime… assim como pelo assassinato de prisioneiros e pelo uso sistemático de tortura física e psicológica.

De facto, no dia 21, já há mais de um mês que tinham sido ilegalizados todos os partidos de esquerda ou que em alguma medida constituíam forças de oposição na Ucrânia — tal como em 2015 foi legalizado o Partido Comunista Ucraniano. E foi assim, dirigindo um Estado e um governo pejado de fascistas e com toda a oposição proibida na Ucrânia, que Zelensky mencionou o 25 de Abril e o equiparou ao combate “pela liberdade” que trava o exército ucraniano.

Isto, além de ser uma mentira sobre os verdadeiros motivos da guerra, foi também um insulto e um ataque à memória histórica da nossa classe. É muito natural, por isso mesmo, que o discurso tenha recebido um aplauso entusiástico da bancada do Chega, a mesma que considera o 25 de Abril e toda a Revolução Portuguesa “um desastre”, nas palavras de André Ventura.

A Revolução Portuguesa de 1974 e 1975 não tem nenhuma semelhança com a carnificina imperialista na Ucrânia. Em 1974, os trabalhadores e camponeses pobres em Portugal, num movimento massivo, derrubaram o fascismo e estiveram a ponto de derrubar todo o sistema capitalista no país. Num movimento que fez tremer a burguesia de todo o mundo, os explorados e oprimidos transformaram a realidade com as suas próprias mãos. Em ano e meio, alcançaram-se direitos no trabalho, na habitação, na saúde, na educação, nos transportes, os avanços tremendos nos direitos das mulheres, o fim do colonialismo, a descriminalização da homossexualidade, toda a espécie de direitos democráticos, liberdade religiosa… as conquistas são demasiadas para listar neste artigo. A Revolução Portuguesa, mesmo derrotada pelo golpe de 25 de novembro de 1975, deixou conquistas que ainda hoje a burguesia se esforça por desmantelar.

Se a revolução tivesse prosseguido e chegado a uma guerra civil, como aconteceu na Revolução Espanhola de 1936 — também usada por Zelensky no seu discurso ao parlamento espanhol —, teria sido uma guerra travada pelos explorados contra os exploradores. A guerra na Ucrânia é, pelo contrário, uma guerra entre dois bandos de capitalistas que estão a usar trabalhadores e pobres como carne para canhão.

O que Zelensky fez, uma vez mais, foi servir-se da memória histórica e das conquistas da nossa classe para tentar granjear apoio para o seu bando imperialista. Isto é apenas a continuação da política que segue desde o primeiro dia. Antes da invasão, Zelensky serviu os mesmos interesses com cortes sociais, privatizações, precariedade e exploração desenfreada dos trabalhadores, a subordinação completa ao imperialismo dos EUA, o militarismo e escalada armamentista (preparando a entrada na NATO), o conluio com criminosos fascistas e neonazis e até o bombardeamento de população civil no Donbass, região leste da Ucrânia, num conflito militar que se prolongou de 2014 até ao início da invasão russa e que causou mais de 15.000 mortos.

A condenação da brutal invasão imperialista ordenada por Putin ao serviço da burguesia russa não pode jamais cegar-nos ou ser usada para lavar o rosto do imperialismo dos EUA e do governo ucraniano.

A NATO é um inimigo de todos os trabalhadores

O governo PS e toda a comunicação social portuguesa e ocidental tentam convencer-nos de que a guerra na Ucrânia é uma batalha pela democracia, pela paz e pelos “valores” da “civilização europeia”, contra o totalitarismo, a ditadura e a barbárie. Assim justificam o fortalecimento da NATO.

Mas não escapa a ninguém que a NATO se está nas tintas para os “valores democráticos”. Os povos do Iraque, da Síria, do Afeganistão, da Líbia e do Iémen, só para mencionar alguns, foram vítimas de “operações militares” atlantistas tão brutais quanto a invasão ordenada por Putin. A hipocrisia é completa no tratamento dado às diferentes “invasões”, e está também à vista de todos no tratamento diferenciado dos refugiados.

De resto, nem mesmo entre os Estados-membro a “democracia” é uma questão para o atlantismo. Com os ultra-reacionários Erdogan ou Orbán, na Turquia e Hungria, respetivamente, a NATO vive bem. Este é o caráter da aliança atlântica desde a sua fundação, na qual o Estado português participou ainda durante o fascismo, e através da qual participou em horrores imperialistas como a invasão do Iraque.

Entre o ruído ensurdecedor da propaganda imperialista, é preciso recordar que a NATO que agora está a armar o exército ucraniano é a mesma que manteve as suas forças preparadas para intervir militarmente e esmagar a Revolução Portuguesa de 1974-75. Sempre que os trabalhadores de qualquer país se levantam contra o capitalismo, sabemos bem de que lado estão a NATO e os seus fantoches.

A “unidade nacional” e a bancarrota do BE

O governo PS prepara-se para aumentar o orçamento militar para 2% do PIB através de cortes sociais, num momento em que a escalada de preços atira milhares de famílias trabalhadoras e pobres para a pobreza.

Santos Silva, Presidente da AR, em resposta a Zelensky, garantiu o reforço da participação portuguesa na NATO, que já se realiza com o destacamento de tropas portuguesas para o leste da Europa, o apoio português à entrada da Ucrânia na UE e a solidez da unidade nacional.

De facto, todos os partidos presentes na Assembleia mostraram a sua subserviência ao imperialismo estado-unidense, à UE e à NATO, o seu apoio à corrida armamentista, ao envio de armas para a Ucrânia e ao envio de militares portugueses para a região. A direção do BE também aplaudiu, mostrando novamente como age sem prestar quaisquer contas aos seus militantes. E de nada serve tentar disfarçar o apoio à NATO com palavras, os atos falam muito mais alto: mobilizaram para a manifestação da direita, votaram favoravelmente à assistência financeira ao esforço de guerra do regime de Zelensky, mantêm-se impávidos perante o envio de armas que se prepara e só poderá prolongar a chacina, além de servir para armar a extrema-direita e os neonazis que estão a fortalecer-se a cada dia desta guerra.

Em vez de denunciar o capitalismo como a causa da carnificina, em vez de denunciar a subordinação do governo português ao imperialismo dos EUA e da UE e de concentrar-se na mobilização dos trabalhadores e da juventude, os dirigentes do BE fazem coro da propaganda de guerra da NATO, aplaudem o discurso ultra-nacionalista e belicista de Zelensky tal como o PS, ao lado do PSD e do Chega; procuram, por todos os meios, manter a paz social e a credibilidade de instituições que estão por detrás desta guerra, assim como da diplomacia burguesa que nos trouxe até aqui; apontam a ONU como solução! É a completa bancarrota política.

O PCP denuncia Zelensky e a NATO para não denunciar o imperialismo russo e o capitalismo

O PCP foi o único partido que votou contra o convite e se recusou a comparecer à sessão. Lê-se na sua declaração: “o PCP não participará numa sessão da Assembleia da República concebida para dar palco à instigação da escalada da guerra, contrária à construção do caminho para a paz, com a participação de alguém, como Volodimir Zelenski, que personifica um poder xenófobo e belicista, rodeado e sustentado por forças de cariz fascista e neonazi”.

Correto, um partido de esquerda, um partido comunista, não pode participar nesta farsa. Mas quais são as causas da guerra e qual é o “caminho para a paz” segundo os dirigentes do PCP? As causas são as provocações à Rússia e o “caminho para a paz” é a diplomacia, o diálogo entre os bandidos e assassinos de ambos os lados desta guerra. Ao apresentar este programa político, a direção do PCP mostra-se em pleno acordo com o BE, o PS e todos os restantes partidos. Está ainda dentro da “unidade nacional” de Marcelo e Costa.

Ora, foi a diplomacia burguesa que nos trouxe até aqui. Voltar atrás é impossível e, em todo o caso, significaria apenas repetir os anos de diálogo e negociação entre os governos dos EUA e da Rússia que antecederam esta guerra — anos de expansão da NATO para leste, de exportação de capital da China para oeste, de um aumento das tensões e da disputa pelo mercado mundial entre os dois blocos imperialistas.

A guerra é a continuação da diplomacia por outros meios, é a tentativa de resolver as contradições pelas armas e já não pelo comércio. Apelar à lei internacional e pedir que a NATO não se expanda ou que a burguesia dos EUA não dispute o mercado europeu e as suas zonas de influência com a China é o cúmulo do cinismo. Às várias burguesas que hoje se digladiam não se lhes pode pedir que hajam de outra maneira que não seja a mais feroz defesa dos seus interesses.

Em última análise, a denúncia do governo de Zelensky, do imperialismo dos EUA e da NATO está a ser feita como apologia do imperialismo russo, apologia das instituições capitalistas internacionais como a ONU e, portanto, apologia de um capitalismo “pacífico” que nunca existiu nem pode existir. É preciso pôr isto preto no branco: não há possibilidade de paz entre os povos em capitalismo. E este sistema de exploração, que está hoje numa crise de decadência orgânica, vai inevitavelmente gerar mais e maiores guerras.

Esta utopia reacionária de paz imperialista equivale a negar qualquer papel à classe trabalhadora para lá do papel de vítima. E é a continuação da posição que as direções da esquerda mantêm também a nível nacional: substituir a luta de classes pela concertação social, a luta nas ruas pelo diálogo entre burocratas e patrões, o caminho da revolução socialista pelo da conciliação de classes e pela reforma do capitalismo.

O PCP está a ser alvo de uma lamentável campanha de difamação e calúnias na comunicação social por se recusar a alinhar com a NATO, os louvores e o envio de armas a Zelensky. Isto é uma evidência. Mas o partido é acima de tudo vítima da sua própria política. A campanha funciona tanto melhor quanto mais incoerente se mantém a posição do PCP, com um programa reformista, tentativas de justificação do imperialismo russo e, no fim das contas, uma defesa da mesma solução que a social-democracia e a direita apresentam para resolver o conflito.

Uma posição genuinamente comunista, que exponha a crise capitalista e a disputa pela hegemonia mundial como as causas da guerra e que aponte o rumo da mobilização de massas e da revolução como solução, é a única que pode resistir à propaganda atlantista e à feroz campanha anticomunista, abrindo a possibilidade de ganhar o apoio de amplas camadas da classe trabalhadora.

Pelo socialismo e internacionalismo!

Um programa socialista de independência de classe e internacionalismo, apoiado não em negociações e manobras dentro das instituições, mas antes na mobilização e organização dos trabalhadores e da juventude, pode pôr fim a esta e a todas as guerras. Foi assim na Primeira Guerra Mundial, com a Revolução Russa de 1917 e os levantamentos por toda a Europa. Foi assim na guerra dos governos fascistas de Salazar e Marcello Caetano, com a luta armada nos países africanos e a revolução em Portugal.

As montanhas de propaganda de guerra despejadas pela internet, pelas televisões e rádios estão longe de ter o efeito almejado pela classe dominante. Os EUA, que enjaulam crianças na fronteira com o México, e a UE, que afoga refugiados no Mediterrâneo e os encarcera em campos de detenção em condições subumanas, serão quem se preocupa com o bem-estar e a felicidade do povo ucraniano? Não somos estúpidos.

Entre a esmagadora maioria dos explorados e oprimidos, está muito claro que “algo está podre no reino da Dinamarca”. A tentativa de apresentar o imperialismo dos EUA, a UE e a NATO como “libertadores” só pode ser recebida com um misto de nojo e raiva pelos trabalhadores e jovens que sofrem sob a sua política — cortes sociais selvagens, precariedade, desemprego, crise da habitação — e vêem as suas invasões destruir país após país.

As condições para reunir o apoio a um programa de luta pela transformação radical da sociedade existem. Mas a política social-democrata de subordinação perante o sistema capitalista contribui para a derrota da classe trabalhadora na Ucrânia, na Rússia e no mundo, com mais e maiores guerras, um aumento do militarismo e da pobreza, uma degradação cada vez maior das nossas condições de vida, a destruição de países inteiros.

Mais do que nunca, há que construir a esquerda socialista e revolucionária!

Abaixo a guerra imperialista! Fora as tropas de Putin, fora a NATO!

Portugal fora da NATO, já! Nem um euro para a guerra imperialista!

Se queres a paz, luta pelo socialismo!

JORNAL DA ESQUERDA REVOLUCIONÁRIA

Sindicato de Estudantes

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