“Isto parece uma bomba de destruição maciça”. Foi assim que o presidente da Câmara Municipal de Leiria descreveu a condição da sua cidade, após a passagem da depressão Kristin, na noite de 27 para 28 de janeiro. Com rajadas de vento acima dos 200 km/h, foi a maior tempestade alguma vez registada em Portugal, e o rasto de destruição foi imenso.

O Distrito de Leiria foi particularmente abalado pela tempestade. A queda das árvores, algumas tombadas, outras cortadas ao meio como se meros paus se tratassem, expõe a violência do vento. Na cidade de Leiria, estima-se que 80% das árvores de grande porte tenham ido abaixo. Incontáveis casas viram os seus telhados destruídos pela fúria dos ventos, os seus habitantes deixados desamparados face às chuvas. Enquanto escrevemos este artigo, a maioria da população do distrito, quase meio milhão de pessoas, está ainda sem eletricidade, água e telecomunicações. Há municípios completamente isolados e incontactáveis, e forçados a apelar ao racionamento de comida e água.

Pelo menos seis pessoas morreram na quarta-feira dia 28 devido à passagem da tempestade, três em Leiria, uma em Vila Franca de Xira, uma na Marinha Grande e outra em Silves. No sábado, somaram-se dois óbitos, com dois homens idosos, que tentavam reparar a cobertura de casas, sofrendo quedas fatais. Na madrugada de domingo, houve uma 9ª vítima, por inalação de monóxido de carbono, de um gerador usado para aquecer uma casa. Os feridos, tanto da tempestade como dos esforços de reparação, contam-se nas centenas.

Foi Kristin que deitou abaixo as árvores e destruiu os telhados. Mas o que deixou tanta gente desamparada, sem comunicações, sem luz nem água, não foi a tempestade, mas a desadequação dos serviços públicos, negligenciados ao longo de décadas pelos sucessivos governos, deixando as populações cada vez mais expostas à catástrofe.

Uma infraestrutura à beira do colapso

No dia a seguir à tempestade a REN reportou a extensão assombrosa dos danos à infraestrutura elétrica do país. 10 linhas caíram, com 744 quilómetros de rede de muita alta tensão ficando fora de operação, correspondendo a 7% da rede elétrica nacional, algumas dessas linhas de importância crítica, ligando o norte e sul do país.

Foram 61 postes de muita alta tensão que caíram ao longo da noite, e muitos mais ficaram danificados. Isto faz de Kristin o pior fenómeno meteorológico que alguma vez se abateu contra a infraestrutura elétrica nacional. Esta tempestade fez mais do dobro dos danos registados na pior ocorrência até à data, ocorrida em 2009.

Entenda-se o que isto quer dizer: foi por um fio que não se deu um novo apagão a nível nacional. Mas em vez de horas, seriam dias, ou mesmo semanas inteiras sem eletricidade, durante um inverno particularmente severo. Demorará semanas até que se consiga reparar por completo os danos provocados pela tempestade – até lá, o país inteiro continuará vulnerável de, a cada tempestade que venha, ver a sua situação exacerbada, e passar a calamidade de regional a nacional.

Como referimos no nosso artigo aquando do apagão de 28 de abril de 2025, não são limitações técnicas que levam à insegurança das infraestruturas. Perante a privatização de todas as empresas de fornecimento de energia, manter a rede a funcionar em condições precárias é uma questão de rentabilidade económica, e os danos humanos que essa ingerência causa são apenas números numa tabela cotada em dólares.

Para além da rede elétrica, outro caso preocupante de sistemas críticos que caíram foi o SIRESP, a rede de comunicações de emergência do Estado português. Gerida por privados, este sistema, que o Estado paga milhões anualmente para manter, falha consistentemente na sua missão: falhou em Pedrógão Grande durante os incêndios, falhou durante o apagão, e falhou novamente agora. O autarca de Batalha foi o primeiro a queixar-se de que o sistema deixara de funcionar no município há mais de um dia, e vários outros municípios viram-se completamente isolados durante dias.

A administração do SIRESP chama a estas de “falhas pontuais”, e tentou desviar a culpa para o operador privado de comunicações, desresponsabilizando-se, como sempre, da perda de vida humana causada pela sua ingerência.

O Governo, por sua vez, não só alinhou com esta desculpabilização, com Montenegro dizendo que, mesmo não tendo funcionado a 100%, “teve a resposta necessária”, como concretizou esta congratulação no dia seguinte, decidindo em reunião de Concelho de Ministros atribuir 26 milhões de euros de indemnização à empresa que, nesse mesmo dia, ainda falhava em vários pontos do distrito.

O carácter do governo de Montenegro fica exposto nestes momentos: um governo da burguesia, para a burguesia, que quer privatizar todos os serviços do Estado, e torná-los canais de transferir os recursos do Estado para os seus amigos e patronos, sem que nada façam para o merecer.

A nacionalização destes serviços – do SIRESP, da REN, da EDP – torna-se cada vez mais evidente e urgente. É necessária nacionalização sem indemnização e colocar estas empresas sob o controlo dos trabalhadores, que as construam para cumprir as suas responsabilidades sociais em todos os momentos!

Um Governo de inaptos e propagandistas

A resposta de Leitão Amaro, ministro da Presidência, à tempestade, foi a mesma que teve à greve geral: ir para as redes sociais publicar fotos e vídeos de si próprio, de mangas arregaçadas, a mexer em papéis e a falar muito seriamente ao telemóvel. Desta vez, o pudor acabou por prevalecer, e o vídeo foi apagado, mas que o ministro cujas responsabilidades tratam, essencialmente, de servir de cara pública do Governo tenha pensado que seria essa a imagem a passar à população, demonstra muito bem que tipo de gente nos governa: uma classe de serviçais da burguesia, cuja única conceção de trabalho é fazer muitas chamadas telefónicas no mesmo dia e ter de assinar muitos papéis.

De resto, a reação dos demais elementos do Governo ao desastre não foi particularmente encorajadora. Visitaram o terreno, lamentaram as mortes, prezaram os serviços – incluindo os que falharam – e hesitaram sobre declarar ou não estado de calamidade, e se valeria a pena invocar ajuda europeia.

Mas de facto, não há muito mais para fazer por parte de um governo cujo objetivo político é passar os serviços públicos para o privado, imputar os custos de reconstruir às populações, e deixar os lucros para as seguradoras e os bancos. Castro Almeida, ministro da Economia e da Coesão Territorial, não poderia ter sido mais claro nesse ponto: “A primeira fonte do financiamento vão ser as companhias de seguros. […] o Estado pode entrar supletivamente”. Torna-se clara a intenção de deixar as populações a ter de combater por meses e anos contra seguradoras que resistirão e adiarão a todo o custo pagar o que lhes é devido.

E os abutres já circulam. Logo no dia a seguir à tempestade, já todos os grandes bancos portugueses tinham lançado linhas de crédito, num total de 300 milhões de euros, para “apoiar as famílias e empresas que sofreram danos”. Apoiar, claro, mas com taxas de juros em geral até acima da média. Estes bancos fazem parte dos mesmos grupos que detêm as seguradoras a que o Governo responsabilizou com liderar o financiamento dos danos, e que agora se preparam para adiar e limitar tanto quanto possível os pagamentos, para forçar as populações afetadas a recorrer a estes empréstimos exploradores.

Teve de se esperar até domingo para o Governo anunciar apoios às populações afetadas, num montante ridículo de 537 euros por indivíduo, ou 1075 euros por agregado familiar, uma autêntica esmola, que fica muito aquém do que será necessário para se reconstruírem as casas e recuperarem os bens. Mais uma medida cosmética que permite ao Governo deixar o terreno aberto para desfalques dos bancos e das seguradoras.

É esta a política do Governo de Montenegro – um governo da burguesia, para a burguesia, cuja ingerência é aprimorada para maximizar os lucros dos seus amigos. A perda de vida humana é aceitável, se permitir aumentar a exploração do povo. Não podemos tolerar mais este governo catastrófico! O combate nas ruas, através da greve geral, tem de continuar até que se concretize a sua queda.

Só o Povo Salva o Povo!

Perante o colapso dos serviços do Estado e a negligência do Governo, recaiu mais uma vez sobre a classe trabalhadora levantar-se e resgatar as populações afetadas pela miséria. Contrastando com a inação do Estado, a mobilização popular para apoiar o distrito de Leiria é impressionante. Muito rapidamente, foi criada uma plataforma que centraliza os pedidos e oferta de ajuda. No sábado, centenas de voluntários reuniram-se junto ao estádio de Leiria, pegando em pás e sacos do lixo para ajudar. Mais tarde no dia, a Câmara Municipal de Leiria anunciou que as doações de bens alimentares e produtos de higiene já tinham ultrapassado as necessidades, pedindo à população que cessasse as entregas.

Mais uma vez, a palavra de ordem erguida pelo povo valenciano quando, em novembro de 2024, sofreram a passagem da tempestade DANA, volta novamente a fazer todo o sentido: Só o Povo Salva o Povo!

São estes momentos também que demonstram a imensa capacidade que a classe trabalhadora tem para se organizar e governar. Ao contrário do que nos insistem em afirmar, ninguém precisa de ministros burgueses nos seus gabinetes a arregaçar as mangas para parecer que trabalham duro nas redes sociais. Precisamos de quem organize plataformas, se mobilize para a ação e disponibilize recursos para ajudar quem mais precisa. São esses os pilares sobre os quais se constrói uma sociedade socialista. E só nesses podemos confiar para nos salvar da catástrofe. Tudo o resto, feito para lucrar acima de tudo, pode, e irá, falhar quando mais precisamos.

As “bombas” continuarão a cair sobre nós

“Não é o primeiro nem será o último”, é como o coloca Carlos da Câmara, professor de Climatologia na FCUL. Filipe Duarte Santos, investigador na mesma instituição, acrescentaria: “Temos que nos preparar para eventos extremos, para temporais, que sempre existiram, mas agora são mais frequentes. Há mais temporais destes em 10 anos do que havia no passado”.

Não é possível separar os eventos climáticos da governação da nossa sociedade, principalmente numa época em que alterações climáticas, causadas pelas emissões desregradas de carbono para a atmosfera, levam a que tempestades, cheias, fogos florestais e todo o tipo de catástrofes se multipliquem.

Na mesma semana em que as populações de Leiria lidavam com a devastação, discutiram-se duas propostas sobre a lei de bases do clima: uma apoiada pela esquerda, que puxaria pela implementação das metas carbónicas já acordadas em 2023, e outra, lançada pela Iniciativa Liberal, que praticamente desmantelava essa lei, reduzindo as metas e permitindo novas concessões de exploração de hidrocarbonetos.

É este o triste estado da política climática em Portugal, entre uma esquerda incapaz de puxar para que se faça o mínimo possível, e uma direita que até isso quer evitar fazer, e tenta puxar para trás o relógio da emergência climática.

Entre as tempestades no inverno e os incêndios no verão, a classe trabalhadora portuguesa está destinada a um constante sofrimento no novo mundo que o capitalismo está a destruir. Contra uma classe dominante que nada fará para travar este desastre, SÓ O POVO PODE SALVAR O POVO!